Secretário municipal assassinado recebia ameaças de facção por atuação da polícia na cidade, diz família
22/03/2026
(Foto: Reprodução) Vídeo mostra momento em que secretário municipal é morto a tiros no interior do Ceará
A família do secretário de Administração de São Luís do Curu, Ricardo Abreu Barroso, morto a tiros na manhã da última quinta-feira (19), contou à Polícia Civil que já vinha sendo ameaçada por uma liderança do Comando Vermelho. O chefe da facção exigia que a família usasse sua influência política para reduzir a atuação da Polícia Militar na cidade.
A investigação aponta que o assassinato do secretário foi ordenado por Wesley Pereira Balbino, conhecido como "Guaxinim", responsável pelo tráfico de drogas na cidade. Ele é considerado uma liderança do Comando Vermelho e está foragido no Rio de Janeiro, de onde arquitetou a trama e recrutou os criminosos envolvidos na execução.
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Entre 2024 e 2025, vários criminosos subordinados a Wesley foram presos no município. Ele e o irmão, Uesclei Pereira Balbino, conhecido como "Gringo", deixaram a cidade por causa da atuação da Polícia Militar, em especial do Comando de Policiamento de Rondas de Ações Intensivas e Ostensivas (CPRaio).
Além de Secretário de Administração do município, Ricardo Abreu é pai do vereador Júnior Abreu, atual presidente da Câmara de São Luís do Curu, e tio do atual prefeito do município, Tiago Abreu. Ele também foi vereador da cidade por dois mandatos. O criminoso acreditava que a influência política do secretário tivesse contribuído para ações do Raio, prejudicando a facção criminosa na cidade.
Em depoimento que consta no inquérito policial, ao qual o g1 teve acesso, um dos filhos de Ricardo Abreu relata que Wesley "Guaxinim" passou a mandar mensagens para a família, exigindo que eles usassem sua influência na gestão municipal para impedir que os policiais do Raio continuassem atuando no município.
Vídeo mostra chegada e fuga de suspeitos após execução de secretário no interior do Ceará.
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Ameaças e morte de irmão
Conforme o depoimento ao qual o g1 teve acesso, o secretário e a família vinham recebendo ameaças, pelo menos, desde a campanha eleitoral de 2024. Na ocasião, o carro de Ricardo chegou a ser alvejado por tiros de arma de fogo, mas ele teria optado por não fazer boletim de ocorrência por temer uma represália.
Em agosto de 2025, a fachada da casa do vereador Júnior Abreu, filho de Ricardo, foi atacada a tiros. Pouco depois, o político teria recebido uma mensagem alertando que se o Raio não saísse de São Luís do Curu, os tiros em breve seriam no próprio vereador.
À autoridade policial, o depoente disse que à época foi orientado a registrar um boletim de ocorrência, mas temia que, caso se envolvessem em um processo contra Wesley Guaxinim, acabariam mais expostos.
Ainda conforme o depoimento da família, no fim de dezembro de 2025, Guaxinim teria dito que se o RAIO continuasse prendendo o pessoal dele na cidade, ele iria matar Ricardo Abreu. Esta última ameaça levou a família a registrar um boletim de ocorrência na primeira semana de janeiro de 2026.
A família acredita que um ponto de virada no comportamento de Wesley foi a morte do irmão dele, o Uesclei "Gringo", durante uma intervenção policial no dia 12 de março, em Fortaleza. Cinco dias após o irmão ser morto, Wesley entrou em contato com as duas mulheres que ficaram responsáveis por monitorar Ricardo e, posteriormente, repassar aos atiradores o paradeiro dele.
Além da morte de Uesclei, a polícia prendeu José Igor Sousa Meneses, o "Keka", apontado como braço direito de Guaxinim em São Luís do Curu. Os últimos acontecimentos teriam sido o estopim para que Guaxinim ordenasse a morte do secretário municipal.
Contato antes do crime
Entre os suspeitos recrutados por Wesley, estão Laila Aparecida Rodrigues Meneses, de 18 anos e Gleiciane Barbosa Diniz, de 24 anos, que monitoraram Ricardo Abreu por dois dias e avisaram aos comparsas sobre o momento em que o secretário estava no comércio.
Câmeras de segurança registraram as duas mulheres passando de moto pelo depósito de construção da vítima antes e durante o crime. Elas foram presas nesta sexta-feira (20), em Caucaia, na Região Metropolitana de Fortaleza. Elas passaram por audiência de custódia e tiveram as prisões em flagrante convertidas em prisões preventivas.
Câmeras de segurança registraram Gleiciane Barbosa Diniz, de 24 anos (condutora) e Laila Aparecida Rodrigues Meneses, de 18 anos (passageira) seguindo o secretário municipal antes de ele ser executado.
Reprodução
Dois dias antes do assassinato de Ricardo Abreu, Wesley Guaxinim entrou em contato com Laila pelo WhatsApp. A jovem já havia namorado um dos integrantes da mesma facção criminosa, que atualmente está preso. Nessas mensagens, Wesley mandou Laila "ficar de olho em Ricardo Abreu e avisar quando ele estivesse pelo depósito".
Um vídeo registrado por câmeras de segurança na parte externa do imóvel mostra quando um carro prata para em uma rua na lateral do estabelecimento, antes do crime. Em seguida, os dois criminosos descem do veículo, enquanto o motorista permanece no carro.
Imagens das câmeras de segurança mostram o secretário dentro do comércio conversando com dois homens - um dos filhos e de conhecido - quando os suspeitos encapuzados entram no local e efetuam diversos disparos.
Tão logo os suspeitos desceram do carro, Laila e Gleiciane subiram na moto e fugiram do local do crime. Após os disparos, os atiradores correm de volta em direção ao automóvel. O motorista então arranca, e os dois entram no carro já em movimento antes da fuga.
Após a conversa, Laila destruiu o chip que usou para falar com Wesley e seguiu para a casa da mãe de Gleiciane, onde as duas tomaram café da manhã. Ao ver a movimentação da polícia na cidade, elas fugiram para Caucaia, onde acabaram presas.
Sítio invadido e família feita refém
Dois criminosos mataram o secretário de Administração de São Luís do Curu, Ricardo Abreu Barroso.
Reprodução
Horas antes de matar o secretário, um grupo, formado por cerca de cinco indivíduos, invadiu um sítio e rendeu os moradores, passando a aguardar as informações sobre o paradeiro da vítima, que foram colhidas por Laila e Gleiciane.
Depois de receberem informações sobre a exata localização da vítima, quatro suspeitos pegaram o carro de um dos reféns para ir até o depósito.
Enquanto isso, um criminoso permaneceu no sítio, para garantir que os reféns não pudessem pedir ajuda. Depois do crime, os suspeitos fugiram e o veículo roubado foi abandonado.
Quem era a vítima
Ricardo Abreu foi vereador, presidente da Câmara Municipal e presidente do Partido dos Trabalhadores (PT) de São Luís do Curu. Ele é pai do vereador Júnior Abreu, atual presidente da Câmara Municipal.
O atual prefeito e sobrinho de Ricardo, Tiago Abreu, publicou uma nota de pesar e destacou a dedicação do tio ao serviço público e o compromisso com a população. Segundo ele, Ricardo era reconhecido pelo respeito e senso de responsabilidade no exercício das funções.
Secretário de Administração de São Luís do Curu, Ricardo Abreu Barroso, foi morto a tiros no depósito de construção de sua propriedade.
Reprodução
“Que sua trajetória seja lembrada com carinho, respeito e gratidão. Seu legado permanecerá vivo entre nós”, diz trecho da nota. O velório e enterro de Ricardo ocorreram na tarde desta sexta-feira (20).
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